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09/02/2005
Francês vence o maior desafio da vela oceânica mundial
Os amantes da vela espalhados pelo mundo se deliciaram ao acompanhar de suas secas, quentes e confortáveis poltronas o dia-a-dia de um grande – se não o maior – desafio da vela oceânica mundial: a volta ao mundo em solitário sem escalas e sem assistência, a Vendée Globe.
Com o avanço da tecnologia de transmissão de dados, pudemos ver, escutar e (por que não?) sentir na pele o que esses corajosos velejadores enfrentaram momento a momento na regata. E não foram poucas as emoções. Particularmente, fiquei impressionado e super feliz em poder ver os vídeos enviados pelos skippers.
Até bem pouco tempo atrás, isso ainda não era possível. Pelo menos não com a rapidez e definição de hoje. A redução do preço de acesso à banda larga e o aumento da capacidade de transmissão de dados vêm abrindo os horizontes e desvendando os mistérios dos mares. Por outro lado, os sistemas de transmissão de dados usados nos barcos também vêm se aprimorando, o que é muito bom tanto para o evento como para o publico em geral.
Deixando um pouco de lado o ambiente comercial da regata, o que marca mesmo é a coragem, a determinação e a ousadia dos skippers. Passar um mês e meio em pleno oceano Austral, negociando com icebergs, ondas enormes e ventos fortes enfrentando a possibilidade de ser pego por uma tempestade de sobrevivência requer coragem. Aceitar o desconforto e o estresse de passar três meses no mar, sem banho, com comida racionada e trabalhando 24 horas por dia, requer muita determinação. E ainda navegar, nessas condições, sob um cenário de competição onde um quer chegar primeiro que o outro, tendo que ser eficiente no manejo das velas, meteorologia e navegação requer muita ousadia. Para a maioria dos participantes terminar a regata já é um grande feito, mas para os líderes isso não basta. Eles têm de provar que seus barcos são mais rápidos, que foram projetados eficientemente para enfrentar tudo isso e ainda vencer.
Na disputada largada em Les Sables D’Olonne, já foi possível ver o favoritismo de alguns.
O inglês Alex Thompson foi um dos que primeiro mostrou que não estava ali só para participar. Depois de ter batido o recorde mundial de velocidade em um monocasco durante a Defi Atlantic (Salvador – La Rochelle) em novembro de 2003 com a incrível marca de 466 milhas de singradura e batalhar muito por um patrocinador principal para a regata, Alex sabia que era sua grande chance. E que tristeza e angustia foi receber a notícia, o depoimento, as fotos e até o vídeo, de sua agonia de ter que, em pleno oceano Atlântico, abandonar seu grande sonho a bordo do Hugo Boss.
Dentre os riscos calculados durante a regata, talvez o que se tenha menos controle é em relação à colisão. O risco de uma colisão com algum objeto flutuante (OFNI – Objeto flutuante não identificado) tirou desta última edição um dos favoritos da prova – Roland Jourdain do veleiro Sill além de outros quatro barcos (Skandia, UUDS, Brother e Pro Form).
O frio, a fadiga pela falta de sono, o estresse provocado pelas tempestades, icebergs e pelo trabalho intenso, foram fatores que com certeza influenciaram no resultado final da prova, mas a batalha entre os franceses Riou/PRB e Le Cam/Bonduelle e o inglês Golding/Ecover, foi coisa que ninguém esperava. Eles completaram uma volta ao mundo praticamente juntos.
A tecnologia na construção dessas poderosas máquinas do vento, reduzindo cada vez mais o peso das embarcações, era um fator de vantagem para Mike Golding e Jean Pierre Dick e Jordain e Le Cam – que possuíam os barcos mais modernos da flotilha, lançados em 2003 e 2004 respectivamente, mas com certeza o que fez a maior diferença foi o planejamento, o preparo, a experiência e a capacidade de cada competidor em suportar toda essa carga de trabalho e estresse e ainda velejar o barco em alta velocidade. Foi aí que se destacou a estrela de Vincent Riou. Para orgulho dos franceses, o bretão de 33 anos, foi o vencedor da Vendée Globe. Além de alcançar a vitória numa regata disputadíssima, Riou ainda massacrou o antigo recorde mundial de volta ao mundo em solitário sem escalas em um monocasco por mais de 5 dias de vantagem.
Coincidência ou não, o recorde anterior, de 94 dias, pertencia ao seu amigo e apoiador, Michel Desjouyaux no mesmo PRB durante a ultima edição dessa mesma regata em 2000/2001. Vincent Riou cruzou a linha de chegada em Les Sables D’Olonne no dia 02 de fevereiro (Dia de Iemanjá), às 22:49 horas (GMT), depois de 87 dias, 10 horas, 47 minutos e 55 segundos no mar.
Considerado um velejador completo, Riou é um verdadeiro "pau pra toda obra". A bordo do open design, o francês é capaz de fazer reparos nos mais diversos sistemas do barco (elétrica, hidráulica, mecânica, etc.) além de ser um especialista em meteorologia. Depois de um longo período à sombra de Michel Desjoyeaux quando se envolveu no design, construção e preparação do PRB para a ultima Vendée Globe, Riou foi convidado, no final de 2003, pelo próprio Michel a assumir o timão do PRB e não decepcionou.
Logo na largada, Riou já apresentava sinais claros que era um dos favoritos. Ele foi o mais rápido a cruzar a layline, atrás apenas de Jean Pierre Dick/Virbac e no contorno da segunda bóia da regata, já era o líder vencendo assim a “coastal race”.
Depois de 4 dias e 3 horas de corrida, Vincent Riou bateu o recorde de Yves Parlier em 2000 entre Les Sables e as Ilhas Canárias em 1 dia e 22 horas.
Riou chegou a ficar por algumas horas na terceira posição ao se aproximar das Ilhas de Cabo Verde, mas sua pior colocação, durante toda a regata, foi de exatas 264 milhas atrás do líder Le Cam/Bonduelle à oeste do Cabo Horn. Entre os feitos de Riou durante sua fantástica regata estão ainda os recordes:
- Foi o primeiro a entrar no oceano Austral.
- Foi o primeiro a cruzar a longitude do Cabo da Boa Esperança depois de 24 dias e 2 horas de regata, a exatos 4 dias e 6 horas a menos do recorde de Yves Parlier em 2000.
- Foi o primeiro a cruzar a longitude do Cabo Leeuwin depois de 36 dias, 11 horas e 48 minutos reduzindo o recorde de Desjoyeaux em 2000 em 4 dias e 12 horas.
- Primeiro a cruzar a longitude do Cabo Horn depois de 57 dias, 08 horas e 43 minutos.
- Foi o primeiro a cruzar a Linha do Equador na rota de volta depois de 72 dias, 13 horas e 58 minutos.
O francês Jean Le Cam, 45, a bordo do seu lindo open design Bonduelle, assegurou a segunda colocação na Vendée Globe ao cruzar a linha de chegada em Les Sables D'Olonne com uma diferença de apenas 6 horas, 32 minutos e 13 segundos do primeiro colocado.
Logo depois, para a surpresa de toda a comissão de regata e espectadores espalhados pelo mundo todo, o inglês Mike Goldind do Ecover reportou que a quilha de seu open 60 havia se partido e caído no fundo do mar. Seu time em terra imediatamente despachou um barco para assisti-lo, mas Golding mesmo assim, terminou a regata orgulhoso. Também pudera. Ter de abandonar a regata tão perto do final seria literalmente morrer na praia.
Para finalizar, vamos torcer para que na próxima edição tenhamos um brasileiro nessas águas, transmitindo suas emoções em português, para que mais pessoas possam se interessar por este esporte maravilhoso e, quem sabe, vibrar com a vitória de um patrício um dia.
André Homem de Mello
www.sailingadventures.com.br
Para saber mais sobre as aventuras de André Homem de Mello, leia o livro Diário de Bordo, disponível no site do velejador: www.andrehm.com.br.
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